Os registros mais antigos falam da presença em Botucatu de uma família Levy. Quando  Sebastião de Almeida Pinto ocupou-se das crônicas sobre o  Botucatu de antes, no seu livro “No Velho Botucatu”, falou que Samuel Levy era rabino e, como profissional trabalhava em ourivesaria, mas também era protético, não abrindo mão de desempenhar as funções de dentista prático. E era francês de nascimento.Samuel morreu em Botucatu e jaz enterrado no Cemitério Portal das Cruzes. Seus segredos e suas histórias foram com ele. (*)

       É bem possível que, entretanto, tenham existido, outras famílias judaicas e professando sua fé, na cidade. Na certeza mesmo, pode ser registrado que as famílias judias, não muitas, começaram a vir a Botucatu entre as duas grandes guerras.Quase todas elas são oriundas da Rússia e de países que caíram sob a influência da revolução bolchevique de 1917. Esses eram os comentários que os brasileiros,que com eles trabalhavam, ouviam. O que é, também, indicado pela procedência que declaravam. Não terá sido coincidência que existisse um conterrâneo aqui radicado, antes deles. Realmente, no almanaque de 1920 já existia um russo chamado Maurício Averback, trabalhando exatamente com uma loja de móveis (Casa dos Russos), o ramo de negócios que mais atraiu as levas de judeus russos que chegaram pouco depois. 

      Quase todos eles montaram suas lojas na Rua Amando de Barros e foram trabalhar com móveis. Ali estavam o Ramiro Glimblat (Casa Ramiro-móveis), o Marcos Zilber (Mobiliadora Moderna-móveis), o Bencjon Waksman (Favorecedora-móveis), os Irmãos Vinick (loja de colchões, móveis e roupas), o José Acquerman (roupas feitas), a Casa Jacques (roupas feitas) e muito antes deles o Paulo Goldemberg, sua esposa Sonia e filha. Eram proprietários da Casa Botucatu e trabalhavam com roupas feitas, também. Essa loja ficava onde hoje está a alfaiataria do Mineto.

      Havia também outras lojas, mal registradas na lembrança dos botucatuenses. Uma delas ficava defronte à Padaria do Bosque e outra, ainda, defronte ao Peabiru. Esta, de propriedade de José Chaitz. Todas as três trabalhando com roupas feitas. Assim pode-se dizer que, pelo menos entre os anos 40 a 80, a presença deles foi quase uma exclusividade no ramo de móveis e roupas feitas. Pontuaram nesse segmento perto de 50 anos. 

Quanto à procedência, teriam vindo de: Bencjon Waksman era polonês; Marcos Zilber era da Besarábia (a Besarábia é nome antigo de uma região ao sul da Rússia; hoje, porções dessas terras são partes de outros países da atualidade: Moldávia, Romênia e a Ucrânia); Ramiro Glimblater era russo; José Acquerman era russo, também. Deles todos, apenas Jacques Zumercon, estabelecido com sua Casa Jacques, no ramo de confecções, declarava-se francês de nascimento e dizia ter combatido ao lado de Moshe Daian, durante as guerras de 1948, que resultaram no estabelecimento do Estado de Israel.    

      Das curiosidades “achadas” esquisitas pelos brasileiros de suas relações estava o fato de se preocuparem demasiadamente em não comer um bom misto quente, exatamente para evitar a carne de porco do presunto. Contam, Jacques especulava por longos minutos o garçon do Café do Ponto, antes de receber o seu “Bauru de Carne”. Queria ter certeza. Ou então, a apreensão do Zilber quando o filho Moshe foi estudar fora: “O que iria ele comer na república, carne de porco???”. E, lembram ainda os brasileiros, do desespero de algumas mães judias ao perceberem que suas filhas ou filhos, em contacto com os meninos e meninas cristãos, se encantavam com as árvores de natal e queriam armá-las dentro de suas casas.

      Existiram outros também: o mascate que morava no Hotel Brasil (hoje Agência Central dos Correios), um russo vermelhão que vendia de tudo: relógios, pulseiras, e etc. Não se fixou, era meio errante, fazendo bem o papel de mascate. Ou então o Felipe, que residia onde hoje existe uma vídeo-locadora nas imediações da Igreja São Benedito. Adorava futebol,gostava de uma boa conversa e parece que, entre todos, foi o que mais se integrou, espontaneamente, na cidade. Morreu de “morte morrida” e foi encontrado depois de algum tempo em sua casa. Seus sobrinhos vieram liquidar seus haveres e propriedades, que ele as havia feito.

      Nessa mesma época existia outra pequena loja, de uma porta só, localizada no quarteirão acima da Praça do Bosque, na principal rua de comércio da cidade, a Amando de Barros. Ao que consta era a única que trabalhava com jóias e onde teria se iniciado a relojoaria do botucatuense “Dito loco”, ainda existente e sob direção de seus filhos. Era um misto de relojoaria e joalheria e era de propriedade de um israelita de nome Jacob, genro de outro comerciante, também judeu, Ramiro Glimblat. Alguns botucatuenses ainda se lembram dessa família, e dentre os componentes dela, de sua esposa Clarinha e de uma filha que tinha o nome de “Pérola”.

      O último a deixar a cidade foi o Jacques, que trabalhava com confecções, mudado para São Paulo depois de se aposentar. Ainda há uns três anos voltou a Botucatu para vender sua casa, construída na rua dr. Costa Leite.

      Todos eles sentiam uma imensa dificuldade para professar coletivamente seu culto, visto inexistir uma sinagoga na cidade. Dos mudados, essa foi a principal razão para terem saído de Botucatu, quando já em fins de suas atividades profissionais.

Adendo em 2020

Para completar seria bom contar uma história ocorrida em 1968, quando Dom Henrique, arcebispo metropolitano. estava para se mudar para a Casa dos Meninos, um orfanato que se inaugurava e passaria a ser sua residência uma vez que já se tornara arcebispo emérito.

Ela foi contada no livro de Luiz Baptistão, que dirigiu as obras e tratava de equipar a Casa com o necessário mobiliário. Vamos deixar que ele mesmo conte:

A fim de acomodá-lo na “Vila”, dirigi-me a uma loja na rua Amando de Barros, no sentido de comprar-lhe alguns móveis.

Feita a encomenda, no momento de saldá-la, a proprietária, nossa antiga vizinha, desconfiada, perguntou-me para o quê tudo aquilo. Respondi que se destinava à nova residência de Dom Henrique, na “Vila”. Subitamente trêmula, seus olhos encheram-se de grossas lágrimas, afirmando que “para Dom Henrique, tudo o que fosse para ele seria pouco e nada custaria. E que nada mais se falasse”.

Qual o motivo dessa senhora, para aquela demonstração de desvelo por D. Henrique? Não declino o nome, em respeito a um assunto, dela apenas.

Mas digo, essa senhora era judia. Sua família e milhares de poloneses judeus haviam sido dizimados na Polônia, quando invadida pelos exércitos alemães e russos, na última guerra mundial. Sobrara-lhe vivo um único irmão, ferido, salvo pelos americanos, que o levaram para a América do Norte. Terminada a guerra, ele não conseguiu visar o passaporte para residir no Brasil, isto porque, na Embaixada Brasileira, segundo lhe disseram, existia uma circular secreta do nosso governo proibindo a entrada de pessoas de origem semita no Brasil. E, esta mulher, aqui em Botucatu, se desesperava pelo infortúnio do irmão, ainda vivendo os horrores da guerra. E, nessa angústia, lendo os jornais, tomou conhecimento da próxima vinda ao Brasil, do prestigioso Cardeal Norte Americano SPELMANN, católico, apostólico e romano, em visita oficial ao nosso país. Ela tomou o caminho certo. Teve a feliz idéia de visitar Dom Henrique e expor suas aflições, solicitando seu auxílio.

Para grandes desideratos, só os grandes homens. Ele, atento e devotado no cometimento de grandes causas, silenciosa e resolutamente viajou para o Rio de Janeiro, entrevistou-se com o Cardeal SPELMANN, expondo o sentido de sua viagem. Este, por sua vez, dirige-se ao Dr. Getúlio Vargas, Presidente da República, prometendo que trataria do assunto. E o fez incontinenti. Dom Henrique volta do Rio e aplaca as angústias desta mulher, confortando-a . Dias depois o jovem judeu é convidado pela Embaixada da América do Norte e, com rapidez, obtém o visto em seu passaporte. Aqui em Botucatu, chegou e passou a residir com a única irmã sobrevivente da família desumanamente dizimada.

Essa vergonhosa circular, emitida pelo antigo “Estado Novo”, foi citada num minucioso trabalho literário publicado no Suplemento de “O Estado de São Paulo”, do dia 14.09.1988

(*) existe um excelente artigo de Sebastião Pinto sobre Samuel Levy, no endereço digital seguinte: http://www.historiadebotucatu.com.br/livros/tempoDante/trabalhos/11.htm

Por: João Carlos Figueiroa

                Publicado em 2008, com o título

                “Israelitas” no livro de Hernâni Donato

                “Achegas para a História de Botucatu”, com lembranças do Sr. Ângelo Albertini

João Carlos Figueiroa

João Carlos Figueiroa

Historiador Botucatuense

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